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As Aventuras de Tintim (no original em francês, Les aventures de Tintin) é o título de uma série de histórias em quadrinhos (banda desenhada, em Portugal) criada pelo autor belga Georges Prosper Remi, mais conhecido como Hergé. Localizadas em um mundo meticulosamente examinado que muito tem em comum com o nosso, As Aventuras de Tintim apresentam vários personagens em cenários distintos. As séries foram as favoritas dos leitores [1] e também dos críticos por mais de 70 anos.

O herói das séries é o personagem epônimo Tintim, um jovem repórter e viajante belga. Ele é auxiliado em suas aventuras desde o começo por seu fiel cão Milu (Milou, em francês). Os dois apareceram pela primeira vez em 10 de janeiro de 1929, no Le Petit Vingtième, um suplemento do jornal Le Vingtième Siècle destinado aos jovens. Mais tarde, o elenco foi expandido com a adição do Capitão Haddock e outros personagens pitorescos.

Esta série de sucesso era publicada em semanários e, ao término de cada história, os quadrinhos eram reunidos em livros (23 no total, em 2008). Ela ganhou uma revista própria de grande tiragem (Le Journal de Tintin) e foi adaptada para versões animadas, para o teatro e para o cinema. As séries são uma das histórias em quadrinhos européias mais populares do século XX, sendo traduzidas para mais de 50 línguas e tendo mais de 200 milhões de cópias vendidas.[2]

As séries de histórias em quadrinhos são há muito admiradas pelos desenhos claros e expressivos, com o estilo ligne claire, típico de Hergé.[3][4][5][6] O autor emprega enredos[7] bem elaborados[8][9] de gêneros variados: aventuras Swashbuckler com elementos de fantasia; mistério; espionagem; e ficção científica. As histórias nas séries de Tintim caracterizam-se tradicionalmente pelo humor em cenas de atividade, o que equivale em álbuns posteriores à sofisticada sátira e comentários político-culturais.

Descrição

Tintim é apresentado como um repórter: Hergé usa tal artifício para apresentar o personagem numa série de aventuras ambientadas em períodos contemporâneos àquele em que ele estava trabalhando (mais notavelmente, a insurreição bolchevique na Rússia e na Segunda Guerra Mundial e a alunissagem). Hergé criou também um mundo de Tintim, que conseguiu reduzir a um simples detalhe, mas reconhecível e com representação realista, um efeito que Hergé foi capaz de alcançar com referência a um bem mantido arquivo de imagens.[10]

Apesar de as Aventuras de Tintim serem padronizadas - apresentando um mistério, que é, então, logicamente resolvido - Hergé encheu-as com o seu próprio senso de humor,[10] e criou personagens de apoio que, embora sejam previsíveis, apresentaram-se com um certo encanto que permitiu ao leitor se engajar com eles. Esta fórmula de uma confortável e bem–humorada previsibilidade é semelhante a da apresentação do elenco na tira Peanuts ou em Three Stooges [11] Hergé também teve um grande entendimento da mecânica dos quadrinhos, especialmente de seu andamento, uma habilidade demonstrada em As Jóias de Castafiore, um trabalho que pretende ser envolvido com a tensão de que nada realmente acontece. [12]

Hergé inicialmente improvisou na criação das aventuras de Tintim, exceto como Tintim iria escapar de qualquer situação que aparecia. Somente após a conclusão de Os Charutos do Faraó, Hergé foi incentivado a reformular e a planejar suas histórias. O impulso veio de Zhang Chongren, um estudante chinês que, sabendo que Hergé iria mandar Tintim à China na sua próxima aventura, instou–o a evitar que perpetuassem a visão que europeus tinham da China no momento. Hergé e Zhang trabalharam juntos na série seguinte, O Lótus Azul, que foi citado pelos críticos como a primeira obra-prima de Hergé. [12]

Outras alterações à mecânica de Hergè criar as tiras se deram a partir de influências por parte de acontecimentos externos. A Segunda Guerra Mundial e a invasão da Bélgica pelos exércitos de Hitler determinaram o encerramento do jornal no qual Tintim era republicado. Os trabalhos foram interrompidos em Tintim no País do Ouro Negro, e os já publicados Tintim na América e A Ilha Negra foram proibidas pela censura nazista, que não concordou com sua apresentação da América e da Grã-Bretanha. No entanto, Hergé foi capaz de continuar com As Aventuras Tintim, publicando quatro livros e relançando mais duas aventuras no Le Soir, jornal licenciado pelos alemães.[13]

Durante e após a ocupação alemã, Hergé foi acusado de ser um colaborador, por causa do controle nazi do jornal, sendo detido brevemente após a guerra. Alegou que estava simplesmente realizando um trabalho sob a ocupação, como um canalizador ou carpinteiro. Sua obra desse período, ao contrário do seu trabalho anterior e posterior, é politicamente neutra e resultou nas aventuras histórias clássicas, como O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rackham o Terrível, mas a apocalíptica A Estrela Misteriosa reflete o sentimento de Hergé durante esse período político incerto.

A escassez do papel no pós-guerra exigiu mudanças no formato dos livros. Hergé geralmente desenvolvia suas histórias de forma que o tamanho fosse adequado à história, mas agora com o papel de dimensão reduzida, os editores Casterman pediram a Hergé para ele considerar a utilização de menores dimensões e adotar um tamanho estipulado de 62 páginas. Hergé continuou e aumentou sua equipe (os dez primeiros livros foram feitos por ele e sua esposa), surgindo assim os Studios Hergé.

A adoção de cor permitiu que Hergé expandisse o alcance das suas obras. Sua utilização da cor era mais avançada do que a dos quadrinhos norte-americanos da época, com valores que permitiam uma melhor combinação das quatro impressões tons e, conseqüentementePredefinição:Carece de fontes, uma abordagem cinematográfica em relação à iluminação e sombreamento. Hergé e seu estúdio permitiriam que as imagens enchessem meia página ou, mais simplesmente, mostrassem detalhadamente e acentuassem a cena, usando cores para realçar pontos importantes. [13] Hergé cita este fato, declarando que "Considero minhas histórias como se fossem filmes. Sem narração, sem descrições, a ênfase é dada às imagens."[14] A vida pessoal de Hergé também afetou a série, com Tintim no Tibete sendo fortemente influenciada pelo seu colapso nervoso. Seus pesadelos, descritos por ele como sendo "todos em branco", [13] se refletem em paisagens cheias de neve. O enredo tem Tintim patinando em busca de Tchang Chong-Chen, previamente encontrado em O Lótus Azul, e a peça não tem vilões e uma pequena lição de moral, com Hergé até se recusando a se referir ao Homem das Neves do Himalaia como "abominável".[13]

A conclusão das aventuras de Tintim ficou incompleta. Hergé morreu em 3 de março de 1983 e deixou a 24ª aventura, Tintim e a Alph-Art, inacabada. O enredo viu Tintim embrenhar-se no mundo da arte moderna, e a história é interrompida no momento em que Tintim está aparentemente prestes a ser assassinado para ser transformado em uma estátua de acrílico a ser vendida.[15]

Álbuns

Álbuns originais de Hergé

  1. Tintin au pays des Soviets (Tintim no País dos Sovietes) 1930
  2. Tintin au Congo (Tintim na África ou Tintim no Congo) 1931
  3. Tintin en Amérique (Tintim na América) 1932
  4. Les cigares du pharaon (Os Charutos do Faraó) 1934
  5. Le lotus bleu (O Lótus Azul) 1936
  6. L'oreille cassée (O Ídolo Roubado ou A Orelha Quebrada) 1937
  7. L'île noire (A Ilha Negra) 1938
  8. Le sceptre d'Ottokar (O Ceptro de Ottokar ou O Cetro de Ottokar) 1939
  9. Le crabe aux pinces d'or (O Caranguejo das Tenazes de Ouro ou O Caranguejo das Pinças de Ouro) 1941
  10. L'étoile mysterieuse (A Estrela Misteriosa) 1942
  11. Le secret de la Licorne (O Segredo do Licorne ou O Segredo do Unicórnio) 1943
  12. Le trésor de Rackham le Rouge (O Tesouro de Rackham o Terrível ou O Tesouro de Rackham o Vermelho) 1944
  13. Les sept boules de cristal (As Sete Bolas de Cristal) 1948
  14. Le temple du soleil (O Templo do Sol) 1949
  15. Tintin au pays de l'or noir (Tintim no País do Ouro Negro) 1950
  16. Objectif Lune (Rumo à Lua ou Objectivo Lua) 1953
  17. On a marché sur la Lune (Explorando a Lua ou Pisando a Lua) 1954
  18. L'affaire Tournesol (O Caso Girassol) 1956
  19. Coke en stock (Perdidos no Mar ou Carvão no Porão) 1958
  20. Tintin au Tibet (Tintim no Tibete) 1960
  21. Les bijoux de la Castafiore (As Jóias de Castafiore) 1963
  22. Vol 714 pour Sydney (Vôo 714 para Sydney) 1968
  23. Tintin et les picaros (Tintim e os Tímpanos ou Tintim e os Pícaros) 1976
  24. Tintin et l'Alph-Art (Tintim e a Alph-Art) 1986, reeditado em 2004 (incompleto)

Projetos inacabados e jamais editados

  • La piste indienne (1958)
    Projeto inacabado no qual Hergé desejava tratar da problemática dos ameríndios com mais seriedade do que em Tintim na América.
  • Nestor et la justice (1958)
    Projeto de aventura na qual Nestor é acusado de morte.
  • Les pilules (1960)
    Com pouca inspiração, Hergé pede para Greg lhe escrever um roteiro. Este foi abandonado, pois Hergé decidira ter a liberdade de criar sozinho suas histórias.
  • Tintin et le Thermozéro (1960)
    Continuação, novamente com Greg, do projeto Pilules, retomando a trama deste último. Igualmente abandonado pelas mesmas razões. Um pouco menos de dez pranchas esboçadas foram desenhadas.
  • Entre 1967 e 1975 (à época do coquetel de apresentação de Vôo 714 para Sidnei em Paris)
    Jacques Bergier propõe a Hergé voltar à ativa . "Aprenderia-se um dia que Girassol substituiu Einstein na Universidade de Princeton, e que lá daria uma aula de semiologia, a ciência da ciência, a ciência da expressão. Eu apresentaria o professor Girassol homenageando-lhe, e este poderia ser o ponto de partida para novas aventuras na descoberta da ciência absoluta."[16]
  • Un jour d'hiver, dans un aéroport (1976 - 1980 — data exata desconhecida)
    Projeto de aventura que se desenrolaria unicamente em um aeroporto, freqüentado por vários personagens pitorescos. Abandonado em proveito de Tintim e a Alph-Art.

Álbuns adaptados de filmes

  • Tintim e o Mistério do Tosão de Ouro - (Tintin et le mystère de la Toison d'Or) 1962
  • Tintim e as Laranjas Azuis - (Tintin et les oranges bleues) 1965
  • Tintim e o Lago dos Tubarões - (Tintin et le lac aux requins) 1972

Personagens

Predefinição:Anexo

Tintim e Milu

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Tintim é um jovem repórter que se envolve em casos perigosos e realiza ações heróicas para salvar o dia. Quase todas as aventuras retratam Tintim trabalhando, empenhado em suas investigações jornalísticas. Ele é um jovem de atitudes mais ou menos neutras e é menos pitoresco que o elenco secundário.

Milu é um cão terrier branco, o companheiro quadrúpede de Tintim. Eles regularmente salvam um ao outro de situações perigosas. Milu freqüentemente "fala" com o leitor por meio de seus pensamentos (muitas vezes mostrando um humor um tanto seco), que supostamente não são ouvidos pelos personagens da história.

Como o Capitão Haddock, Milu é tem gosto pelo uísque Loch Lomond, e suas ocasionais "bebedeiras" tendem a colocá-lo em problemas, assim como sua intensa aracnofobia. O nome francês "Milou" foi largamente atribuído como uma referência indireta a uma namorada da juventude de Hergé, Marie-Louise Van Cutsem, que tinha o apelido de "Milou".[17]

Existe outra explicação para as origens dos dois personagens. Foi afirmado que Robert Sexé, um fotógrafo-repórter, cujas proezas eram recordadas na imprensa belga entre a metade e o fim da década de 1920, foi uma inspiração para o personagem Tintim. Sexé tinha notadamente uma aparência similar a de Tintim, e a Fundação Hergé na Bélgica admitiu que não é difícil imaginar como Hergé poderia ter sido influenciado pelas proezas de Sexé.[18] Naquele tempo, Sexé estivera viajando pelo mundo em uma motocicleta feita por Gillet de Herstal. René Milhoux era um campeão do Grand-Prix e detinha o recorde de motocicleta da época, e, em 1928, enquanto Sexé estava em Herstal falando com Leon Gillet sobre seus projetos futuros, o Sr. Gillet o colocou em contato com seu novo campeão, Milhoux, que acabara de deixar motocicletas prontas para Gillet de Herstal. Os dois rapidamente iniciaram uma amizade, e passavam horas falando sobre motocicletas e viagens; Sexé explicando suas dificuldades e Milhoux oferecendo seu conhecimento sobre mecânica e motocicletas pequenas trabalhando acima de seus limites. Graças a essa união de conhecimento e experiência, Sexé partiria em numerosas viagens por todo o mundo, escrevendo incontáveis relatos jornalísticos. O secretário geral da Fundação Hergé na Bélgica admitiu que não é difícil imaginar como o jovem George Rémi, mais conhecido como Hergé, poderia ter sido inspirado pelas bem publicadas proezas desses dois amigos, Sexé com suas viagens e documentários, e Milhoux com seus triunfantes registros, para criar os personagens de Tintim, o famoso repórter viajante, e seu fiel companheiro Milu.

Capitão Archibald Haddock

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Capitão Archibald Haddock, um capitão navegador de origem discutível (pode ser de origem inglesa, francesa ou belga), é o melhor amigo de Tintim, e foi introduzido em O Caranguejo das Tenazes de Ouro. Haddock foi inicialmente descrito como um personagem fraco e alcoólatra, tendo mais tarde, porém, se tornado mais respeitável. Ele evoluiu para se tornar genuinamente heróico e até mesmo da alta sociedade, depois de encontrar um tesouro de seu ancestral Sir Francis Haddock (François de Hadoque em francês), no episódio O Tesouro de Rackham o Terrível. A natureza rude do capitão e seu sarcasmo representam uma contradição ao freqüente e improvável heroísmo de Tintim; ele sempre rompe com um comentário seco ou satírico quando o repórter parece demasiado idealista. O Capitão Haddock vive em sua luxuosa mansão chamada Moulinsart.

Haddock usa uma série de pitorescos insultos e maldições para expressar seus sentimentos: "com mil milhões de mil macacos", "com mil raios e trovões", "trogloditas", "cleptomaníaco", "anacoluto", "iconoclasta", mas nada que seja realmente considerado uma grosseria. Haddock é um beberrão, particularmente chegado ao uísque Loch Lomond, e sua embriaguez é freqüentemente usada para propósitos cômicos.

Hergé afirmou que o sobrenome de Haddock deriva-se de um "peixe inglês triste que bebe muito".[2] Haddock permaneceu sem um nome próprio até a última história completa, Tintim e os Tímpanos (1976), quando o nome Archibald foi sugerido.

Na primeira edição brasileira do livro A Estrela Misteriosa, publicada no início dos anos 1970, o capitão Haddock é chamado de Capitão Rosa.

Personagens secundários

Os personagens secundários de Hergé já foram mencionados como muito mais desenvolvidos que os principais, cada um imbuído de força de temperamento e personalidade que se comparam aos personagens de Charles Dickens.[19] Hergé usava os personagens secundários para criar um mundo realista onde colocar os protagonistas das aventuras. Para mais realismo e continuidade, os personagens voltariam às séries. Foi conjeturado que a ocupação da Bélgica e as restrições impostas a Hergé forçaram-no a focar-se na caracterização para evitar o surgimento de situações políticas incômodas. A maior parte dos personagens secundários foi desenvolvida nesse período.[20]

São dois detetives desajeitados que, mesmo não tendo nenhum parentesco, parecem ser gêmeos, tendo uma única diferença física: a forma de seus bigodes. Eles muito contribuem no humor da série, devido às suas antístrofes e incopetência. Os detectives foram, em parte, baseados no pai e no tio de Hergé, gêmeos idênticos.
O Professor Trifólio Girassol é um cientista quase surdo, que entende e age diante de tudo de maneira equivocada como resultado de sua deficiência auditiva. É um personagem menor mas que aparece regularmente nas aventuras de Tintim. Estreou em O Tesouro de Rackham o Terrível, sendo baseado, parcialmente, em Auguste Piccard.[21]
Bianca Castafiore é uma cantora de ópera, a quem o capitão Haddock absolutamente despreza. Contudo, ela constantemente aparece de súbito onde quer que eles estivessem, junto com sua criada Irma e o pianista Igor Wagner. Seu nome significa "flor branca e pura", algo que o Professor Girassol entende quando oferece uma rosa branca à cantora pela qual é secretamente apaixonado em As Jóias de Castafiore. Ela foi baseada nas grandes cantoras de ópera em geral (de acordo com a percepção de Hergé), na tia de Hergé's, Ninie, e, no pós-guerra, em Maria Callas.[10]

Críticas

Muito se tem escrito sobre a ideologia da série. A obra é objeto de polêmica, em grande parte graças à contínua reedição das aventuras, que foram concebidas há muitos anos, em um contexto inteiramente diferente. Já se acusou Hergé de propagar em seus álbuns violência, crueldade para com os animais, pontos de vista colonialistas, rascistas e até mesmo fascistas; foi acusado também de suposta misoginia, dado que quase não aparecem mulheres na série. Essas acusações se referem apenas a aspectos pontuais da série, não podendo-se dizer que sejam pontos de vista predominantes da série. Nesse sentido, há uma certa "lenda negra" de Tintim, devido ao fato de Hergé ter publicado algumas histórias em um jornal aprovado por nazistas, o Le Soir, durante a ocupação alemã na Bélgica.

Tintim surgiu no periódico Le Petit Vingtième. Ainda que a Fundação Hergé tenha tomado tais acusações por ingenuidade do autor, e que certos pesquisadores como Harry Thompson afirmem que "Hergé fazia o que lhe dizia o abade Wallez (o diretor do jornal)",[22] o próprio quadrinista sentia que, visto suas origens sociais, não poderia escapar de preconceitos: "Ao conceber Tintim no Congo e Tintim no País dos Sovietes, estava sustentado por preconceitos do meio burguês no qual vivia. (…) Se tivesse de refazê-los, refazer-los-ia de outro modo, certamente." [23]

Em Tintim no País dos Sovietes, os bolcheviques são descritos como personagens maléficos. Hergé se inspirou num livro de Joseph Douillet, antigo cônsul da Bélgica na Rússia, Moscou sans voile, que era extremamente crítico ao regime soviético. Hergé inseriu isto no contexto afirmando que para a Bélgica da época, uma nação devota e católica, "tudo o que fosse bolchevique era ateu".[24] No álbum, os chefes bolcheviques são motivados apenas por interesses pessoais, e Tintim descobre, enterrado, "o tesouro escondido de Lênin e Trotsky". Mais tarde, Hergé assimilou os defeitos desses primeiros álbuns a "um erro de minha mocidade".[22] Mas hoje, parte de sua maneira de representar a URSS da época pode ser considerada aceitável. Em 1999, o jornal The Economist publicou que "retrospectivamente, a terra da fome e da tirania desenhada por Hergé estavam estranhamente corretas".[25]

Tintim no Congo foi acusado de representar os africanos como seres ingênuos e primitivos. Na primeira versão do álbum, em preto-e-branco, vemos Tintim diante de uma lousa dando aula a crianças africanas. "Meus caros amigos", diz ele, "hoje, vou lhes falar de sua pátria: a Bélgica". Em 1946, Hergé redesenhou o álbum, transformando esta cena numa aula de matemática. "Sobre o Congo, eu conhecia apenas o que contavam na época: 'os negros são como grandes crianças, sorte deles estarmos lá!', etc. E desenhei os africanos de acordo com estes critérios, no mais puro espírito paternalista, que era o da época na Bélgica", explicou-se Hergé.[26]

Em 1988, no jornal britânico Mail on Sunday, Sue Buswell resumiu os problemas evidenciados nesse álbum: "lábios grossos e pilhas de animais mortos", em referência à maneira como foram desenhados os africanos e aos animais que Tintim caça (atividade muito em voga na época em que o álbum foi feito).[27] Todavia, Harry Thompson nota que tal citação pode ter sido tomada "fora de seu contexto".[28]

Transpondo uma cena de Les Silences du Colonel Bramble, livro de André Maurois, Hergé apresenta Tintim como um caçador, abatendo quinze antílopes, sendo que apenas um já seria o bastante para se alimentar. O grande número de animais mortos ao longo da história levou o editor dinamarquês dos álbuns Tintim a exigir algumas modificações. Hergé teve de substituir uma cena em que Tintim faz um furo no dorso de um rinoceronte para depositar uma dinamite e explodir o animal.[29]

Em 2007, a Comissão pela Igualdade Racial (Commission for Racial Equality), órgão britânico, exigiu que o álbum fosse retirado das prateleiras de livrarias após uma reclamação, afirmando ser "triste saber que haja ainda hoje livreiros que aceitem vender e divulgar Tintim no Congo".[30] Em 23 de julho de 2007, um estudante congolês fez uma queixa em Bruxelas, capital da Bélgica, na qual considera a obra um insulto para o seu povo.[31] O caso é investigado, mas o Centro para a Igualdade de Oportunidades e Combate ao Racismo (Centre pour l'égalité des chances et la lutte contre le racisme, instituição belga), advertiu que não se tome uma "atitude hiper-politicamente correcta".[32]

Vários dos primeiros álbuns de Tintim foram alterados por Hergé em edições subseqüentes, geralmente a pedido das editoras. Em Tintim na América, por exemplo, os traços caricatos dos personagens negros foram redesenhados como sendo brancos ou de etnia indefinida, incitado pelos editores americanos. [33] Em a Estrela Misteriosa, um vilão americano tinha originalmente o sobrenome judeu Blumenstein. Isto era controverso, tanto que o personagem tinha exactamente o aspecto esteriotipado de um judeu. Blumenstein foi alterado para Bohlwinkel, sobrenome menos etnicamente específico. Em edições posteriores, o personagem foi novamente alterado, desta vez para sul-americano, de um país ficcional chamado São Rico. Mais tarde, Hergé descobriria que Bohlwinkel também é um sobrenome judeu.[34]

Outro álbum apontado como racista é Perdidos no Mar (também conhecido como Carvão no Porão), de 1958. Ainda que a história seja uma denúncia da escravidão, na qual Tintim e Haddock defendem claramente os mais fracos, um artigo publicado em 1962 na revista Jeune Afrique criticou duramente a representação dos africanos,[35] especialmente a forma de falarem. Hergé rebateu as críticas e, em 1967, reescreveu alguns diálogos.

A idéia do fascismo da série pode estar relacionda à atitude do autor na época da Segunda Guerra e ao seu vínculo inicial com o abade Norbert Wallez, homem de extrema-direita e anticomunista assumido. Vale notar que os álbuns publicados durante a guerra são histórias nas quais não há nenhuma alusão política.

Álbuns como O Ceptro de Ottokar, de 1939, desmentem a suposta simpatia de Hergé pelo fascismo. Nessa história, há críticas evidentes à política expansionista de Hitler. "Creio que todos os totalitarismos são nefastos, sejam eles de direita ou de esquerda.",[36] disse o autor.

Hergé jamais negou suas idéias conservadoras. Talvez por esse motivo, Tintim seja a favor da ordem estabelecida, o que não o impede de dar atenção aos menos favorecidos, e, em muitas ocasiões, tomar o partido destes. Ao longo de suas viagens, Tintim demonstra um verdadeiro interesse e respeito pelas culturas não-européias, o que se manifesta também na vontade de Hergé pesquisar meticulosamente para a realização dos álbuns.

Adaptações

Hergé era favorável às adaptações da série, feitas para diversas mídias. Ele encorajava sua equipe a participar dos projetos de animação de suas histórias. Após sua morte, os Estúdios Hergé se tornaram responsáveis pelos direitos autorais da obra.

Tintim no cinema

Predefinição:AP

Foram realizados cinco filmes baseados em As Aventuras de Tintim. O primeiro, Le crabe aux pinces d'or de 1947, teve roteiro escrito pelo próprio Hergé baseado no álbum O carangueijo das tenazes de ouro. É um filme de animação com marionetes, e foi dirigido por Claude Misonne. Durante certo tempo a versão em francês foi considerada perdida, restando apenas a versão dublada em inglês.[37] Porém, atualmente, no site oficial, os membros pagantes do clube de Tintim têm acesso a uma cópia do filme em francês.

O segundo filme, Tintin et le mystère de la Toison d'Or (Tintim e o mistério do Tosão de Ouro), de 1961, com cenários e atores reais, foi dirigido por Jean-Jacques Vierne. É considerado pelos fãs como um dos melhores filmes com o personagem.

O terceiro, Tintin et les oranges bleues (Tintim e as laranjas azuis), de 1964, também contou com atores reais, e foi dirigido por Philippe Condroyer. Não teve o mesmo sucesso que o filme que o antecedeu.

O quarto, Tintin et le temple du soleil (Tintim e o templo do sol), de 1971, é um filme de animação dirigido por Eddie Lateste e com roteiro baseado em Les sept boules de cristal e Le temple du soleil.

O quinto e último filme, Tintin et le lac aux requins (Tintim e o lago dos tubarões), de 1972, também um filme de animação, foi dirigido por Raymond Leblanc, e o roteiro não se baseou em nenhuma história original de Hergé.

Filmes previstos: Trilogia Tintim

Steven Spielberg comprou uma opção sobre os direitos autorais de Tintim pouco antes da morte de Hergé, em 1983. Entretanto, naquele momento era incerta uma adaptação de Tintim para o cinema, já que Hergé recusara a assinar qualquer contrato.

Finalmente, em novembro de 2002, a Dreamworks comprou os direitos cinematográficos de toda a série. Em 15 de maio de 2007, Steven Spielberg e Peter Jackson oficializaram a realização de uma trilogia adaptada das histórias, a ser realizada em computação gráfica e motion capture. O diretor do terceiro filme ainda não foi anunciado. De acordo com a revista Variety, a equipe de Jackson já produziu um piloto de vinte minutos como demonstração.[38] Para Spielberg e Jackson, um filme com atores reais não faria jus às histórias em quadrinhos de Tintim.

Projetos inacabados

Em 1967, um terceiro filme com o ator Jean-Pierre Talbot era previsto, mas foi cancelado.

No início dos anos 2000, o projeto de adaptar Tintim para o cinema foi retomado. Vários diretores foram escalados e posteriormente desmentidos, particularmente Jaco Van Dormael, Jean-Pierre Jeunet e Roman Polanski. A maioria dos casos eram apenas rumores, mas Jeunet estava realmente interessado no projeto. Em 2002, em entrevista ao jornal Libération, ele renunciou ao projeto, anunciando: "Por serem muito reservados, os herdeiros de Hergé tornam tudo muito complicado, tive um encontro com eles e compreedi que iriam me quebrar as pernas".

Televisão

Após uma primeira tentativa em semi-animação não colorida, feita por Jeah Nohain, surgiram:

Teatro

  • Tintin aux Indes, ou le Mystère du diamant bleu, de 1941, peça escrita por Hergé e Jacques Van Melkebeke, não adaptada de nenhum álbum em particular.

Comédia musical

  • Kuifje - De Zonnetempel, de 2001, música de Dirk Brossé.

Video games

A Infogrames fez quatro jogos sobre Tintim:[39]

  • Tintin sur la Lune, de 1987
  • Tintin au Tibet, de 1994
  • Tintin : le Temple du Soleil, de 1997
  • Tintin Objectif Aventure, de 2001

Influências

Na sua juventude, Hergé era um grande admirador de Benjamin Rabier, e esta influência manifestou-se, principalmente, numa série de imagens em Tintim no País dos Sovietes, em particular as imagens dos animais, sugeridas por Hergé. René Vincent, o ilustrador art-deco, também influenciou no início das aventuras de Tintim: "A influência pode ser detectada no início dos soviéticos, onde meus desenhos são projetados ao longo de uma linha decorativa, como um 'S'…".[40] Hergé admitiu que havia roubado uma parte do trabalho de George McManus, afirmando que estavam "tão divertidos, que utilizei-os, sem escrúpulos!".[41]

Durante a pesquisa extensiva que que realizou para escrever O Lótus Azul, Hergé foi influenciado pelos estilos ilustrativos e xilogravura chineses e japoneses. Isso é especialmente notável na paisagem marítima, que é similar ao trabalhos de Katsushika Hokusai e de Hiroshige. [42][43]

Hergé também afirmou que Mark Twain foi uma influência, embora sua admiração possa tê-lo levado a desviar-se quando representou os incas como não tendo nenhum conhecimento do eclipse vindouro em O Templo do Sol, um erro atribuído por T.F. Mills como uma tentativa para retratar "incas em pavor aos tempos modernos (A Connecticut Yankee in King Arthur's Court, de Mark Twain)". [9]

Produtos

Arquivo:Tintin Shop.jpg

Permissões para produzir produtos baseados no personagem Tintim foram concedidas a uma cadeia de lojas com base unicamente na viabilidade. A primeira loja que iniciou a venda de produtos foi a Jane Taylor, em 1984, localizada no Covent Garden de Londres, e agora com filiais em todo o mundo, incluindo duas lojas na Bélgica (localizadas em Bruxelas e Bruges). Há também uma série de cibercafés temáticos, com a marca Tintim em todo o mundo.

Selos

A imagem de Tintim foi usada em selos postais em numerosas ocasiões,[44] o primeiro emitido pelo Belgian Post em 1979 [45] para celebrar o dia da filatelia. Esta foi a primeira de uma série de selos com as imagens dos quadrinhos de heróis belgas, sendo o primeiro selo do mundo a ter um herói dos quadrinhos.

Em 1999, a Royal Dutch Post lançou dois selos, em 8 de outubro de 1999, baseados na aventura Rumo à Lua, com os selos vendidos totalmente poucas horas após o seu lançamento. Os correios franceses, em seguida, emitiram um selo de Tintim e Milu em 2001. Para marcar o fim do franco belga, e também para comemorar o aniversário da publicação Tintim no Congo, mais dois selos foram emitidos pelo Belgian Post em 31 de dezembro de 2001. Os selos também foram emitidos no Congo, ao mesmo tempo.

Tradução para a língua inglesa

O processo de tradução de Tintim para a língua inglesa foi feito em 1958 por Methuen & Co. Ltd., de Londres. Foi um trabalho conjunto liderado por Leslie Lonsdale-Cooper e Michael Turner, que trabalharam conjuntamente com o autor (Hergé) para traduzir da forma mais fiel possível ao trabalho original. [46] Alguns cartoon foram traduzidos do francês para o inglês com algumas falas "em branco". Isto foi feito para remover conteúdo considerado impróprio para crianças, como drogas e racismo.[47][48] Os álbuns editados após foram refeitos por Hergé, a fim de serem mais adequados e, atualmente, aparecem em edições publicadas em todo o mundo. O The Atlantic Monthly Press, em cooperação com a Little, Brown and Company republicaram os álbuns nos anos 1970.

Em parte, devido à grande quantidade de expressões locais (especialmente piadas ou passagens cômicas), foi preferida sempre a adaptação e não a tradução literal.

Legado

Tintim e seu criador Hergé inspiraram muitos artistas através da sua obra. A linguagem desenvolvida pelo autor mostrou-se influente e contribuidores do Tintin magazine empregavam seu estilo e, mais recentemente, Jacques Tardi, Yves Chaland, Jason Little, Phil Elliott, Martin Handford, Geoff Darrow e Garen Ewing produziram trabalhos utilizando o estilo do autor.

O legado de Tintim inclui o estabelecimento[49] do mercado de coleções de quadrinhos/cartoons; e o modelo adotado pelas coleções foram também adotadas por criadores e editores na França e Bélgica. O sistema permite uma grande estabilidade financeira, com os criadores recebendo dinheiro enquanto ainda trabalham. O modelo rivaliza com o norte-americano e o inglês do tipo "trabalhe antes e receba depois". Roger Sabin argumenta que este modelo permite "em teoria… uma melhor qualidade". [50]

No mundo da arte, tanto Andy Warhol como Roy Lichtenstein afirmam que Hergé é uma das suas maiores influências. Lichtenstein produziu pinturas baseadas em fragmentos dos quadrinhos de Tintim. Warhol utilizou o estilo ligne claire e produziu uma série de pinturas tendo Hergé como tema. Ele declarou: "Hergé tem influenciado meu trabalho da mesma maneira que Walt Disney. Para mim, Hergé foi mais que um artista dos quadrinhos." [51]

Na música, Tintim foi inspiração para várias bandas e músicos. Uma banda britânica de technopop dos anos 1980 assumiu o nome The Thompson Twins influenciada pela obra. Stephen Duffy, integrante da banda Duran Duran, tocou o hit Kiss Me com o nome de "Tintin"; ele teve que retirar o nome por problemas de direitos autorais. Duffy lançou, após, o álbum Designer Beatnik sob o nome de "Doctor Calculus", em referência ao personagem Professor Calculus. Uma banda psicodélica australiana e uma banda independente norte-americana do estilo progressive rock utilizaram o nome "Tin Tin" inspiradas pelo personagem. O cantor e compositor sul-africano Gert Vlok Nel comparou Tintim à Deus na canção Waarom ek roep na jou vanaand, presumivelmente por causa do caráter do personagem.

Prêmios

Em 1° de junho de 2006, o Dalai Lama condecorou com o prêmio Luz da Verdade o personagem, juntamente com o arcebispo sul-africano Desmond Tutu.[52] O prêmio foi em reconhecimento ao trabalho de Hergé no livro Tintim no Tibete.[53] Em 2001, a Fundação Hergé exigiu a retirada da tradução chinesa da obra, que havia sido lançada com o título Tintim no Tibete Chinês. O trabalho foi publicado depois com a tradução correta. [54]

Citações

"No fundo, vocês sabem, meu único rival internacional é Tintim". (Charles de Gaulle)[55]

"Sou eu, eu sob todas as formas! Tintim, sou eu quando gostaria de ser heróico, perfeito; os Dupondt, sou eu quando sou estúpido; Haddock, sou eu quando tenho vontade de me exteriorizar." (Hergé) [56]


Ligações externas


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